Existe cultura além do digital?

o texto foi transcrito de uma palestra que dei durante o seminário “a cultura além do digital” e está sendo editado por mim…NÂO ESTÁ FINALIZADO

“As características do hacker e do trabalhador cultural devem se fundir e desse modo formar uma ligação abrindo possibilidades de ações por todo aspecto social”(1), essa frase, para mim, resume um pouco do conceito de Cultura Digital que estamos tentando trabalhar hoje. Eu venho de um morro também, assim como Neílton do Devotos, só que a que a efervescência cultural do Jordão Alto era a bala e não tinha absolutamente nada relacionado a cultura nenhuma. Eu nunca ouvi um Maracatu perto de onde eu morava, nunca ouvi um caboclinho… absolutamente nada, apenas cultura de massa. Eu me criei na cultura da procura, tive que ir pro Alto José do Pinho pra ver, cruzar a cidade para poder ver cultura de verdade ir em outros morros, em outros lugares. E eu acabei encontrando, por sempre ter tido uma postura hacker, por hackear o real e o digital. Hoje em dia trabalho com a relação da cultura com as tecnologias livres e novas formas de culturas libertárias.


Eu acho que não existe cultura além do digital, como também acho que não existe nada além da cultura, dos processos culturais. E em relação a tecnologia estamos culturalmente envolvidos por ela. Porque a grande história é que a tecnologia faça parte, e já faz, do cotiano das pessoas e que elas se possam ter “o acesso” e não apenas “acessar”. Durante o Submidialogia2(2), que foi um evento que realizamos algum tempo atrás aqui em Olinda, a grande temática era: “O que queremos de fato é que as idéias voltem a ser perigosas”. A mesa mais esperada por mim tratava do seguinte assunto: O futuro depois do Software Livre, a discussão durou muito menos do que eu espera, porque a conclusão a que todos nós chegamos é de que não existe futuro depois do software livre. Não! O Software livre não tem “depois”, software livre é agora, é o presente, software livre é o que vivemos hoje e viveremos daqui pra frente, é Openoffice rodando em um sistema operacional GNU/Linux. Então, pensar em prospectar qual é o futuro do software livre? ele é agora? Isso é o que eu vivo. Eu vivo o software livre. Não existe “o futuro” pro Software livre, não é mercado, nós já fazemos tudo que com software livre e vamos aprimorar cada vez mais cada ferramenta, não estamos aqui para “prospectar as alterações de mercado referente ao uso de software livre nas grandes empresas” não somos mercado, somos revolução social, comportamental. A mesma coisa eu penso em relação à cultura digital. Não tem essa história de futuro da cultura digital. A gente já vive isso. A cultura já é digital, nossa vida já conta com o digital no cotidiano como nunca na história da humanidade, precisamos é fazer com que o povo se aproprie das ferramentas. Porque do mesmo modo como se fazia cultura há séculos atrás você ia sendo envolvido pelo que estava acontecendo no momento, pelo meio. Um bom exemplo é a harpa. A harpa só sobrevive até hoje por conta de um desenvolvimento “tecnológico”. Em resumo: A invenção de pedais para que os músicos pudessem subir e descer os tons fez com que a harpa pudesse deixar de ser um instrumento doméstico e fosse incorporada em orquestras e se adaptar as mudanças que a própria música estava sofrendo. Nos dia de hoje existem vários pedidos de patentes relacionados a harpa, desde parafuso até novas formas de pedais, continuam evoluindo e atualizando a harpa.


Hoje nós utilizamos vários tipos de tecnologia, temos o SMS(3) ou o MMS(4), vídeos feitos no celular e que a revista de fofoca dizem “você tira a foto de um famoso em e faz a sua matéria”, seja o paparazzi saca? Essa é a cultura que a gente vive, não adianta a gente fugir, já é!! Tanto para “bem” quanto para o “mal”, caso eles existam.


A cultura digital é a cultura desse momento, vivemos em mundo digital, na era digital, e não adianta esperar HAL de 2001 odd, R2D2 ou coisas parecidas com que os filmes de ficção científica mostravam, os agentes intligentes (3) já estão entre nós, filtrando tudo que acessamos, mediando nossas atividades na internet, sejam relacionadas diretamente com os bancos de dados (como os mecanismos de busca, por exemplo), seja em nossa relação com outras pessoas na rede (como os filtros de comunidades virtuais) os filtros aprendem conosco. Hoje em dia não se vive mais sem fazer parte do circuito das novas tecnologia, que até bem pouco tempo eram restritas a quem tivesse um alto poder aquisitivo. A Copa do Mundo foi um “bom” exemplo: a grande tecnologia, grande negócio do momento, era ter uma TV de plasma para assistir a copa. No centro do Recife eu presenciei a seguinte situação, duas lojas no centro da cidade: uma loja que vendia TV de plasma e na frente dela havia uma outra que oferecia crédito, sem comprovação de renda, sem burocrácia… e se você for aposentado, pensionista ou funcionário público, melhor, porque aí você tem o credito mais fácil e desconta direto do seu contra-cheque. Então é assim, tem que ter a TV de tela plana, plasma, etc… é o que a tv te vende, é o que o jornal lhe vende, essa é a lei de consumo atual, você pode consumir tudo, até a alta tecnologia. Alta tecnologia? já era, agora está tudo na mão, mas os excluídos digitais são aqueles que não têm acesso ao conhecimento digital e não as ferramentas. Imaginemos então uma pessoa que mora numa cidade da zona da mata de Pernambuco, que toca Maracatu e trabalha nas plantações de cana-de-açucar, ele não vai ter um telefone celular ? claro que sim e muito provávelmente, o celular acessa web, manda torpedos, tira fotos e grava vídeos. A tecnologia está dentro do cotidiano dela, essa é a realidade do dia a dia. Tudo está acessível, mas tem que saber buscar e usar, pois ao mesmo tempo que as tecnologias estão na mão das pessoas podem fácilmente escorrer e se tornarem apenas fetiche, se você não sabe como navegar ou simplesmente o que é internet, do que vai te servir o acesso que o celular te permite ? será que a camera do celular só pode lhe servir para tirar fotos da família, amigos, etc ? ou pode servir para registrar processos e atividades relacionadas a sua cultura e que normalmente não são documentadas ? e da mesma forma o vídeo no celular, se até a morte do sadam foi registrada assim…


Mas como essa (r)evolução cultural digital pode ser aproveitada e vivida de forma que venha para melhorar a relação cotidiana do indivíduo e da coletividade, que possa se tornar um bem menos injusto do que outras revoluções, como a industrial. Como fazer com que tais tecnologias e conceitos possam ser realmente utilizados livremente ?


A minoria, usufruindo do monopólio da ciência, pelo próprio efeito desse privilégio, é golpeada simultaneamente na inteligência e no coração (…) pois nada é mais malfazejo e estéril que a inteligência titulada e privilégiada.” – Mikhail Alexandrovich Bakunin



Agora vamos entrar em um dos pontos chave do processo da cultura digital, o software.


Como diria Lawrence Lessin, grande idealizador da licença Creative Commons(5) e autor do livro Cultura Livre, “Enquanto meu trabalho é inspirado em parte no de Richard Stallman, ele não concordou comigo em partes importantes desse livro”. Os desenvolvedores de software na década de 70 frequentemente compartilhavam seus programas de uma maneira similar aos princípios do software livre. No final da mesma década, as empresas começaram a impor restrições aos usuários com o uso de contratos de licença de software. Em 1983, Richard Stallman iniciou o projeto GNU, e em outubro de 1985 fundou a Free Software Foundation (FSF). Stallman introduziu os conceitos de software livre e copyleft, os quais foram especificamente desenvolvidos para garantir que a liberdade dos usuários fosse preservada(6).O grande embate entre os dois se dá no âmbito das licencas, Creative Commons X GPL, mas minha preocupação atual é diretamente entre a relação do produto licenciado e a forma como produzimos uma cultura livre, as ferramentas. O software livre e a produção de produtos licenciados com licenças livres.


O que temos hoje de cultura livre, está muito fundamentado em algumas idéias do software livre, produção sem intermediários, redistribuir cópias, produção colaborativa e ser generoso intelectualmente. Porém, a questão do software é um dos pontos que causam mais problemas entre os ativistas do software livre, como eu, e o pessoal da “cultura livre”. Mas como? eles não são as mesmas pessoas? não! Hoje temos uma, perigosíssima, tendência dos que trabalham específicamente com cultura livre, a desassosiar o “produto livre” da “produção livre”. O produto licenciado é que tem a importância? ou o produto é parte de um processo? Por ser naturalmente um produtor eu tenho uma tendência natural a me preocupar com o processo.


O software livre não é apenas uma proposta para utilização de um programa de computador, mas sim uma forma diferente de se pensar uma ferramenta que cada vez mais está presente no dia-a-dia das pessoas. Uma produção de cultura digital baseada em software proprietário é uma cultura da exclusão, pois apenas poucos conseguem pagar pelas licenças dos softwares proprietários, ou caso não haja dinheiro vamos utilizar software pirata, mas software pirata também não dá as liberdades de acesso ao software que os direitos do software livre lhe dá:


    A liberdade para executar o programa, para qualquer propósito (liberdade nº 0); A liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades (liberdade nº 1). Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade; A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo (liberdade nº 2); A liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie (liberdade nº 3). Acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade;

Como podemos ver, são fatores que vão muito além da questão financeira.



Hoje temos um Ministério da Cultura que avalia o uso do software dentro dos Pontos de Cultura como um dos fatores para a auto-sustentabilidade, que pensa na relação que o software vai ter durante o processo de produção cultural. Um modelo descentralizado de produção colaborativa deve prioritáriamente se utilizar de uma ferramenta livre. A liberdade é um processo evolutivo. Não sou contra o software proprietário apenas sou a favor de opções socialmente justas.


Eu trabalho em um projeto que destina para cada ponto de cultura R$20mil reais para compra de equipamentos para produção cultural, caso utilizássemos software proprietário no projeto em torno de R$10mil seriam destinados para compra de licenças de software, 50% da verba. Não existe relação custo benefício tendo em vista que para todo software proprietário temos um similiar ou superior, como no caso do Blender (software de animação 3d, livre) que vem sendo amplamente adotado até em produções que tradicionalmente se utilizavam de softwares proprietários.


Em Informátiaca houve três grandes booms. O primeiro boom era o do hardware que o computador, era muito caro e ninguém conseguia comprar um pois era o preço de um carro, com a proliferação dos contrutores de hardware o preço barateou e vem o segundo boom, que o Brasil passa por ele sem notar muito, que é o boom do software, o software se transforma em algo muito caro. O computador é barato, mas o software é caro, mas e agora ? você tem um computador barato e um software livre (não é gratuito que são coisas diferentes liberdade e gratuidade), agora temos o novo boom o do ser humano. Em que o importante é a pessoa, o importante é o ser, o importante é o cara que manipula o hardware e o software.


Que relação é essa com o digital que estamos tendo? O que é digital? O que é um software? Você sabe o que é um software? Você tem noção em que coisa você está metendo a mão para fazer seu trabalho? Você sabe o que é um arquivo mp3? mas tenho certeza que já utilizou, você sabe por que ele é um mp3 e não um wave? Todas essas preocupações não são apenas técnicas, são necessárias para se entender que mundo digital estamos vivendo, não quero também transformar todos em technicos mas temos que enxergar um pouco mais além, se estamos falando de cultura e do digital temos que saber aonde estamos pisando, saber onde estamos botando a mão..Que software é esse que trabalhamos ? Ampliar essa discusão ao máximo é de suma importância, discutir esses assuntos com as pessoas responsáveis pelo processo é vital. Na minha adolescência eu passava o dia na frente de computador e vídeo-game e à noite ia pra Soparia ouvir música e continuar na busca da cultura, não trocava idéia com gente de música sobre tecnologia, direito autoral, formas de distribuição em rede, redes sociais, etc…eram coisas separadas computador e cultura, hoje em dia se discute propriedade intelectual em mesa de bar, VIVA !! se na época do nascimento do Movimento Mangue já houvesse essa discussão muitas bandas ainda seriam donas dos seus fonogramas, suas músicas. Hoje temos assuntos que são discutidos como novos paradigmas mas que são a base de algumas culturas como a cultura popular, se você for pegar a cultura popular de verdade eles sempre foram generosos intelectualmente, senão não teriam chegado até os dias de hoje.


Estamos tentando encontrar formas alternativas para os atuais modelos de cultura capitalista, a exploração econômica não é a única base do capitalismo, lutar apenas no terreno econômico equivale a atacar de maneira parcial uma totalidade.


Temos que libertar o “poder fazer” do “poder sobre”, “Software Livre é uma nova forma de democracia, porque coloca o usuário, o público, no comando do que o software faz”.


Um novo código de linguagem se forma agora a partir da era digital. O código une vários meios de comunicação. A integração de vários modos de comunicação em uma rede interativa, criando uma metalinguagem que pela primeira vez na história, integra no mesmo sistema as modalidades escritas, ora e audiovisual da comunicação humana.



(1) THE ELECTRONIC DISTURBANCE, Critical Art Ensemble – http://www.critical-art.net/ download gratuito da versão em inglês e disponível em português pela Editora Conrad, http://www.lojaconrad.com.br/Baderna/Disturbio_Eletronico.asp


(2) Submidialogia2, http://submidialogia.descentro.org/


(3) Serviço de mensagens curtas

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Serviço de mensagens curtas ou Short message service (SMS) é um serviço disponível em telefones celulares (telemóveis) digitais que permite o envio de mensagens curtas (até 255 caracteres em GSM e 160 em CDMA) entre estes equipamentos e entre outros dispositivos de mão como palm e handheld, e até entre telefones fixos (linha-fixa).

SMS originalmente foi projetado como parte do GSM (Sistema de comunicação móvel global) padrão digital de telefone celular, mas está agora disponível num vasto leque de redes, incluindo redes 3G.

Já se discute e planeja-se sua evolução através do MMS (Multimedia Messaging Service). Com o MMS, os usuários podem enviar e receber mensagens não mais limitados aos 160 caracteres do SMS, bem como podem enriquecê-las com recursos audiovisuais, como imagens, sons e gráficos.

O primeiro SMS foi projetado em dezembro de 1992 de um computador pessoal (PC) a um telefone celular na rede da GSM de Vodafone no Reino Unido.

O termo Torpedo é utilizado no Brasil para designar o nome das mensagens escritas que são enviadas para o celular. Ver Torpedo SMS.



(4) Serviço de mensagens multimídia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Serviço de mensagens multimídia (do termo inglês multimedia messaging service ou ainda o acrônimo MMS) é uma tecnologia que permite aos telemóveis enviar e receber mensagensmultimédia. O MMS é uma evolução dos SMS que implica a evolução da rede celular tradicional (GSM) para UMTS.

Com o MMS, os usuários poderão enviar e receber mensagens não mais limitados aos 160 caracteres do SMS, bem como poderão enriquecê-las com recursos audiovisuais, como imagens, sons e gráficos.

O MMS foi criado para tirar proveito das tecnologias 2,5G e 3G e obviamente espera pegar carona na popularidade do SMS, principalmente na Europa e Ásia. Alguns analistas acreditam que a migração do SMS para o MMS terá impacto tão grande no mercado de telefonia móvel quanto a transição do DOS para o Windows no mundo dos PCs.

A evolução do SMS para o MMS deverá ser gradual, com funcionalidades sendo adicionadas à medida que o mercado as absorve. Para as operadoras, o MMS será mais uma fonte de receitas, não apenas pelo maior número de bits transmitidos por mensagens, mas pela possibilidade de criação de serviços diferenciados de maior valor agregado.

Em Portugal, os três operadores móveis licenciados já utilizam esta tecnologia. No Brasil, todas as operadoras móveis já disponibilizam este serviço, tanto as GSM como CDMA.


(5) O Creative Commons (CC) é uma organização sem fins lucrativos dedicada a expandir a quantidade de trabalho criativo, para que outros possam legalmente partilhar e criar trabalhos com base noutros.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Creative_commons

(6) Texto extraído da Wikipédia, a enciclopédia livre.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Software_livre




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