Afinal, qual é o lugar da autoria na rede?

http://www.cronopios.com.br/site/internet.asp?id=3490

Por Fábio Oliveira Nunes

Quando a rede Internet torna-se popular no final do século XX –
oriunda da gradual abertura da estrutura descentralizada e militar da
rede americana ARPANet – configura-se um espaço aberto para todos
aqueles que até então estavam distantes do crivo hegemônico. Quer
difundir sua produção? Coloque-a na Internet, oras. Inicialmente, a
rede era propícia apenas para a divulgação de elementos textuais ou
com algumas imagens fixas de baixíssima resolução. Com a expansão da
banda larga aos usuários comuns, a rede tornou-se também o lugar de
todas as demais linguagens contemporâneas passíveis de estarem no
domínio digital, tais como, animações e vídeos com resoluções e
duração cada vez maiores.

No evento Cartografia Web Literária, realizado duas semanas atrás no
SESC Consolação, em São Paulo, com o apoio do site Cronópios, do qual
participei em uma produtiva mesa sobre as interfaces poéticas na web,
entre as questões recorrentes (e não apenas nesta mesa) está um
sentimento de inquietação de uma legião de autores que nasceram sob
uma espécie de limbo tecnológico – uma preocupação existencial que se
esboça a cada texto disposto na rede. O fato é que esse autor se
localiza em uma indeterminação de pensamentos ora contraditórios, ora
conflitantes – entre a necessária divulgação e a necessidade de
inserção em um mercado restrito, entre querer ser reconhecido, mas não
poder publicar na rede seus melhores ou recentes textos sob o risco de
ser sumariamente copiado.

A primeira resposta para o autor de conteúdos divulgados através da
rede é pensar que o maior de todos os valores é a difusão. Como bem
pontua o pensador americano John Perry Barlow em seu célebre e
pioneiro texto – de 1994! – sobre a economia em tempos de rede, Vender
vinho sem garrafas: a informação não pode ser vista pela ótica
simplista da mercadoria já que a informação torna-se mais valiosa à
medida que é difundida, quanto mais acesso, mais valor. Já a
mercadoria, limitada sob o prisma do mercado, ganha valor quando é
cada vez mais desejada, ganha valor na condição de escassez. Com a
rede, os autores caíram em si sobre algo que há muito tempo, a arte
conceitual já tinha encarado: a desmaterialização.

No fundo, antes da rede, nunca se vendeu simplesmente poemas: sempre
se venderam livros, mercadorias fisicamente tangíveis. Mesmo na
questão de direitos de autor, o que se protegia era o livro e não as
idéias, os conceitos ali presentes: estes sempre foram universais e
gratuitos. Mas, com a digitalização, perdemos os continentes e ficaram
apenas os conteúdos: não precisamos como antes do livro, da fita, do
CD ou do DVD, já estão todos trafegando como dados que vão
ricocheteando pelos cafundós do planeta (mesmo que se materializem
eventualmente em algum nó por aí). O que temos são dados que querem
ser lidos, querem se reproduzir e como seres vivos em busca de
oxigênio – contornam-se das ameaças ao seu livre trânsito e emergem.
Os dados são como as idéias. Mas pouquíssimas pessoas ainda entenderam
isso.

As empresas de software lidam com essa desmaterialização e ao mesmo
tempo ainda mantêm estruturas arcaicas de lidar com os problemas de
propriedade intelectual. E mesmo a opinião pública, ainda está muito
aquém: um projeto de um senador brasileiro sobre “segurança na rede
Internet” trouxe a tona a discussão sobre a possibilidade de
considerar crime o uso de programas compartilhadores de redes
Peer-to-Peer (P2P). Os programas P2P conectam computadores a
computadores em diversas redes de compartilhamento de arquivos e podem
promover uma difusão ainda mais democrática do que via WWW (interface
gráfica a qual estamos acostumados via navegador web, que requer um
servidor para suas páginas) – ainda que uma grande parte dos conteúdos
seja discutível.

Quando se coloca a difusão como elemento-chave, aparecem outras
soluções possíveis. No Cartografia Web Literária, se falou um pouco
sobre Copyleft – um substituto a altura da Copyright para a fluidez
que invariavelmente corre nas redes. Trata-se de uma licença que
difere da idéia de domínio público: limita o uso privado e pode
possibilitar modificações e distribuição. Softwares que não limitam
seu código fonte podem ser melhorados por outros programadores. Nesta
ótica, poemas também poderão ser melhorados por outros poetas. A rede
é o espaço para situações de colaboração que vão ser justapostas a uma
velha noção de autor e que, ao mesmo tempo, libertam as idéias da
ditadura da mercadoria, sem qualquer crise existencial.

http://www.cronopios.com.br/site/internet.asp?id=3490


Fabianne Balvedi
GNU/Linux User #286985
http://fabs.tk
“Mas quando eu crescer não dá, porque aí eu
não vou mais gostar de desenhos animados…”
Eu, com 7 anos de idade, argumentando com
meus pais sobre minha urgência em aproveitar
a infância para poder apreciar animações.
Que pequena preconceituosa era eu.

______________________________

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Lista de Discussão do Estúdio Livre
portal colaborativo  -> http://www.estudiolivre.org/
sobre esta lista -> http://lists.riseup.net/www/info/estudiolivre
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